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Mídia não mostra todos os processos que antecedem uma descoberta científica, diz estudo

Através da análise de notícias sobre a fraude dos embriões do sul-coreano Wook Sug Hwang, pesquisa mostra padrões na forma como a imprensa divulga a ciência

Desde que publicou o artigo na revista americana Science, em 2004, afirmando ter conseguido clonar embriões humanos, o cientista sul-coreano Woo Suk Hwang ascendeu à posição de grande estrela. Grande parte desta notoriedade se deveu à ação da mídia, que divulgou com entusiasmo as descobertas de Hwang. Um ano depois, porém, descobriu-se que os trabalhos do sul-coreano eram baseados em dados falsos. Esta história é relembrada no estudo “A Incrível História da Fraude dos Embriões Clonados e o Que Ela Nos Diz Sobre Ciência, Tecnologia e Mídia”, escrito por pesquisadoras do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que foi publicado este ano na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Para avaliar como a mídia atuou na cobertura desta reviravolta, Iara Maria Souza e Amanda Caitité analisaram as notícias referentes ao tema publicadas nas versões on-line dos jornais Folha de São Paulo, O Globo e O Estado de São Paulo. Mais do que mostrar as diferenças na imagem de Hwang apresentada pela imprensa – um colunista chegou a afirmar que 2005 fora um “ano trágico para a pesquisa em biotecnologia”, enquanto alguns meses antes o sul-coreano era chamado de “pioneiro da clonagem terapêutica”, exemplificam as autoras -, o mote da pesquisa foi mostrar como, a partir da revelação da fraude, os intricados processos que antecedem a publicação de um artigo científico, geralmente não divulgados, tornaram-se o foco da cobertura jornalística.

De acordo com a pesquisa, “a exposição da ciência pela mídia costuma destacar aspectos intelectuais, descobertas e promessas de aplicação, em um processo de simplificação de toda a teia de fatores que se interligam quando de uma pesquisa científica. Assim, “as descobertas científicas costumam aparecer como fatos concretos, resultantes de testes experimentais e elaborações teóricas”, afirmam as autoras no artigo. “A forma pela qual elas são produzidas se torna velada: as múltiplas interações que envolvem os pesquisadores, os artefatos presentes nos laboratórios, seus financiadores e seus públicos potenciais não são tópicos relevantes no noticiário”, explicam.

A partir do momento em que se descobriu que a pesquisa de Hwang era fraudulenta, “as complexas redes que constituem a ciência começaram a ganhar visibilidade”, dizem as pesquisadoras. O que se viu, assim, foi a progressão de um fato concreto (embriões humanos haviam sido clonados) para a divulgação de toda a rede de atores e fatores que colocavam a validade desta descoberta em questão: “o governo coreano e seus funcionários; empresas de biotecnologia; canais de tevê; fundos para pesquisa; óvulos; linhagens de células e fungos; revistas científicas; imagens de células; esquemas de colaboração entre instituições, entre outras”, exemplificam.

As autoras questionam se os complexos esquemas que envolvem uma pesquisa científica realmente só deveriam ser divulgados quando de casos de desvios como a fraude do sul-coreano. “Que interesse pode ter, para o leigo, a complexidade da trama científica?”, perguntam no artigo. Para elas, apresentar a ciência para o grande público como algo sujeito a múltiplas variáveis, não sendo, portanto, infalível, pode ser positivo. “Mostrar a ciência como um empreendimento prenhe de incertezas e contingências pode, por sua vez, promover uma relação com a ciência que seja mais marcada pela prudência, pelo cuidado, pela atenção com suas descobertas e seus resultados e com os desafios éticos que ela nos coloca”, defendem.

Publicado em 30 de novembro de 2010

Para ver o artigo na íntegra, acesse.

Agência Notisa

diariodobrejo.com

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