13/06/2026
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Bruno Gagliasso questiona: “Que homens não choram?

Bruno Gagliasso precisou sair de casa enquanto rodava o filme “Por um fio”, que estreia em outubro e é baseado no livro homônimo de Drauzio Varella. No longa, o ator de 44 anos vive o irmão do médico, que morre de câncer. Na tela, sua interpretação comove à medida em que a doença avança e ele vai escalando o estado de tristeza. O trabalho mexeu com o corpo — ele perdeu 24 quilos — e a cabeça, e ele virou uma “manteiga derretida”. Nem a família aguentou. Bruno assume que leva o personagem para casa e, por isso, diretores o definem como “intenso”.

O vasto cardápio de personagens que encarna em diferentes filmes e séries inéditos vem aí para reiterar essa intensidade: líder estudantil no longa “Honestino”; escravocrata moderno em “Corrida dos bichos”; versão branca e de olhos azuis do herói nacional em “Makunaíma XXI”; perigoso dono de construtora na série “Rauls”; e playboy traficante da sétima temporada de “Impuros”.

Bruno participou do videocast “Conversa vai, conversa vem”, do GLOBO, que vai ao ar hoje, às 18h, no Youtube e no Spotify. Leia um trecho da entrevista.

Como exatamente “Por um fio” mexeu com você?

Não tinha como não ir fundo. É uma história de amor entre irmãos que mostra a fragilidade da vida. Mexeu demais comigo. Meu personagem morre de câncer, perdi amigos para a doença, que todo mundo conhece. Olhar para os meus filhos foi dolorido. Eu chorava muito. Estava insuportável. Queria abraçar e beijar eles o tempo inteiro. Do nada, falavam comigo e eu começava a chorar. Esse foi um dos personagens que me fez decidir escolher, daqui pra frente, só papéis que me emocionem, que me transformem como ator ou transformem as pessoas.

O que vem sendo fundamental para transitar e imprimir verdade em papéis que são parte de universos tão diferentes?

Está tudo dentro da gente, né? Procuro existir e não atuar. Lógico que ao fazer um viciado em “Impuros” não vou cheirar cocaína. Mas preciso estar ali, presente. Posso fingir, mas não quero, e quem está assistindo, percebe. Preparadores me ajudam nesse encontro comigo mesmo. É por isso que saio de casa: fico longe porque gosto de emburacar. Admiro grandes atores que conseguem separar, como Tony Ramos. Eu levo o personagem para casa, não sei separar. Preciso ficar pensando nele 24 horas.

Sua primeira produção no cinema, ‘Clarice vê estrelas’, tem a ver com sua filha, Titi, e o jogador Vini Jr. Como essas histórias se cruzam?

De todas as histórias que estou contando, essa é a mais afetiva. Fiz esse filme pra ela. Colocar uma menina preta como protagonista. É a história de uma família preta, de classe média, com 80% do elenco e 90% da equipe preta. É um filme antirracista sem falar sobre racismo. Botar essa criança preta para sonhar, mexer no imaginário e não para sofrer, passar fome, tomar tiro. Quero que minha filha sinta orgulho. Quando procurei Vini Jr. na cara de pau, ele topou entrar como produtor associado na hora.

Qual é a importância de contar a história do líder estudantil Honestino Guimarães?

Se estive do lado da escória da História (em “Marighella”, interpretou um torturador), também quero estar do lado certo. Honestino morreu 50 anos atrás. E a nossa luta ainda é por justiça, liberdade e democracia até hoje. Temos que falar sobre isso, colocar o foco nessas pessoas que deram a vida.

Pratica bastante desapego estético em ‘Honestino’ e ‘Por um fio’. Ficar feio é um recurso para fugir do lugar de galã?

Óbvio! Principalmente no começo da carreira. Hipocrisia dizer que não. Perdi muito protagonista de novela das oito porque falava: “Não quero fazer o galã, prefiro um papel menor”. O Tarso (de “Caminho das Índias”) foi assim, o Inácio (de “Celebridade”) também.

Onde está a sua vaidade? Já te vi falando sobre sua estatura (1,70cm)… É uma questão para você?

Já foi. Hoje, não é. Olha o tamanho do meu tênis: fico com 174cm. Cansei de usar salto. Essas questões são fortes quando se é mais novo. Falaram que estava feio de tão magro em “Por um fio”. Não me achei, porque tinha que estar daquele jeito. Nunca a vaidade da beleza vai ser maior do que a minha profissional.

Como o TDHA e a hiperatividade impactaram sua rotina?

Fui expulso de três escolas. Tomo remédio desde sempre. Não decoro texto. Estudo, entendo o sentido. O que adianta falar uma palavra sem alma? Não consigo ler um texto que não me interesse e nem aceitar papéis que não quero fazer. Quantas vezes fui filmar no Projac de carro e voltei com o motorista? Esqueci que estava de carro.

Que importância dá ao dinheiro? Faz extravagância?

Talvez, ter 12 cavalos. Mas não tenho o sonho de ter um avião. Gosto de dinheiro, mas gosto muito mais de tempo. Quero ter tempo para buscar minha filha na escola. Gosto de dinheiro para produzir filmes, vestir o que quero, proporcionar infância legal para os meus filhos. Me vejo mais como investidor e realizador do que empresário.

Percebo sua preocupação em traçar uma trajetória coerente com seus valores. Mas há quem enxergue certo progressismo performático. Já vi questionarem: “Por que adotar filhos na África e não no Brasil?”

Eu vivo o que acredito, essa coerência. Amor não tem CEP. Não escolhi ir para a África para me tornar pai. Minha mulher se tornou mãe e eu me tornei pai porque ela foi visitar um país e encontrou o grande amor da vida dela, que é a nossa filha. Enquanto estão preocupados com a minha vida, eu estou vivendo.

Sobre o autor: Redação DDBNews

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