Venezuelanos que vivem no exílio celebraram o recente ataque dos Estados Unidos que resultou na saída do governo do ditador Nicolás Maduro. Apesar de reconhecerem que o interesse de Donald Trump está mais voltado para o petróleo do que para a promoção da democracia, muitos deles acreditam que a situação sob Maduro é tão difícil que qualquer alternativa é válida. Para eles, essa ação pode abrir espaço para a recuperação das liberdades políticas e civis.
A frustração dos venezuelanos é compreensível. Declarações de repúdio não derrubam regimes autoritários, e a luta pela democracia na Venezuela tem sido um desafio isolado, exacerbado pelo apoio que o regime de Maduro recebe de alguns setores da esquerda na América Latina. Contudo, a situação chama a atenção da comunidade internacional, que não pode ignorar a violação dos direitos humanos que ocorre no país, especialmente diante das ameaças do presidente Trump a outras nações.
Entretanto, as esperanças de que a Venezuela retorne à democracia podem ser excessivamente otimistas. Pesquisas realizadas por cientistas políticos mostram que, entre 1946 e 2014, a derrubada de regimes autoritários por intervenção externa levou a um processo de democratização apenas em 20% das situações. É importante notar que, muitas vezes, a queda de um líder não garante o fim do regime que ele representa, como ocorre em muitos casos de golpes de Estado.
Históricos de intervenções militares dos Estados Unidos levantam questionamentos sobre a eficácia dessas ações. A guerra do Iraque, por exemplo, resultou em consequências inesperadas, incluindo a ascensão do Estado Islâmico.
Embora Trump tenha demonstrado pouco interesse genuíno pelo bem-estar do povo venezuelano, sua abordagem é estratégica. Ao contrário de presidentes anteriores, que tentavam manter uma imagem de preocupação com os direitos humanos, Trump foca em garantir acesso ao petróleo e em rivalizar com a influência de China e Rússia na região. Isso inclui o desdém por figuras da oposição, como María Corina Machado, e a possível manutenção da vice-presidente Delcy Rodríguez no poder.
A ditadura de Maduro continua fortalecida, apoiada por uma elite política e forças armadas leais ao regime. Não está claro se a intervenção norte-americana resultará na volta de exilados ou na libertação de prisioneiros políticos, um assunto que o governo venezuelano recentemente anunciou. Além disso, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, promete um plano de transição política.
Há, porém, a possibilidade de que essa intervenção acabe por fortalecer ainda mais o regime de Maduro ao fornecer uma justificativa para aumentar a repressão, como já foi visto com a prisão de jornalistas críticos ao governo. É possível que, se Delcy Rodríguez se aliar a Trump, ela possa manter o controle do regime de acordo com seus interesses.
Outro cenário possível é o surgimento de disputas internas dentro do governo chavista que poderiam agravar a instabilidade política na Venezuela e na região.
Um ativista venezuelano, que foi preso político por dois anos em uma temida penitenciária subterrânea em Caracas, descreveu o impacto psicológico de sua experiência. Ele revelou que tinha medo de sonhar, pois ao dormir encontrava-se com seus entes queridos, mas ao acordar, era confrontado com a dura realidade.
Os venezuelanos desejam, e merecem, a oportunidade de sonhar novamente. Contudo, a intervenção dos Estados Unidos pode representar apenas uma nova etapa em um longo ciclo de dificuldades.