Réu culpa subtenente e alega analfabetismo para negar feminicídio

O ex-companheiro da subtenente da Polícia Militar Marlene de Brito Rodrigues, de 59 anos, prestou seu primeiro depoimento à Justiça na tarde desta segunda-feira (13). A audiência ocorreu na 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande. Acusado de feminicídio, Gilberto Jarson atribuiu à vítima uma série de problemas e sustentou que ela tirou a própria vida.
Durante o interrogatório, Gilberto afirmou que Marlene enfrentava problemas emocionais havia meses. Segundo ele, a policial fazia tratamento psiquiátrico e utilizava medicamentos controlados. Disse ainda que ela ficou mais abalada após o casamento dos filhos. "Depois que os filhos casaram, ela ficou muito triste. Ela falava que estava sozinha", declarou.
O acusado também disse que a companheira reclamava do trabalho após retornar à ativa na Polícia Militar, tinha problemas financeiros e havia feito empréstimos que a deixaram endividada. Gilberto afirmou que Marlene falava frequentemente em tirar a própria vida. "Eu tomei o isqueiro dela", relatou.
Segundo ele, as ameaças continuaram mesmo após tentativas de convencê-la a buscar ajuda médica. Ao reconstruir os acontecimentos que antecederam a morte, contou que havia decidido deixar a residência onde o casal morava. "Ela falou que, se eu fosse embora, ela ia fazer aquilo que estava prometendo fazia tempo", afirmou.
O réu voltou a negar que tenha efetuado o disparo. Segundo sua versão, encontrou Marlene armada dentro de casa e tentou impedir que ela atirasse. "Quando eu vi, ela estava com o revólver. Corri para tirar da mão dela. Aí aconteceu o disparo." Ele afirmou que a companheira morreu em seus braços.
Gilberto também foi questionado sobre o processo em que responde por armazenamento de pornografia infantil. Ao responder sobre as imagens encontradas em seu celular, alegou desconhecimento. Disse que não sabe ler, não sabe escrever e que não possui conhecimento para utilizar diversas funções do aparelho. A mesma justificativa foi repetida em respostas relacionadas a documentos e mensagens citados durante a audiência.
Ao final do interrogatório, voltou a negar qualquer participação na morte. Ele assumiu ter passagem por um homicídio, que confessa ter cometido. "Eu não matei ela. Se eu for condenado, vou ser condenado inocente", declarou.
Após a audiência, o advogado Jeferson Soares afirmou que a defesa considera positivo o resultado da instrução e continuará sustentando que Marlene tirou a própria vida. "A expectativa é bem positiva, pelo fato que uma das testemunhas da defesa relatou que ela realmente tinha depressão e estava fazendo tratamento", afirmou.
A testemunha citada foi a única pessoa apresentada pela defesa a prestar depoimento. Irmã de Gilberto e proprietária de um salão de beleza frequentado pela subtenente, ela afirmou que Marlene comentava sobre tratamento psiquiátrico e uso de medicamentos. A defesa também informou que pretende pedir perícia em aparelhos eletrônicos para tentar recuperar conteúdos que poderiam reforçar a tese de suicídio.
Esta foi a segunda audiência do processo. Na primeira sessão, realizada em junho, sete testemunhas foram ouvidas. Marlene foi encontrada morta com um tiro no pescoço dentro da residência onde vivia com Gilberto, no Conjunto Habitacional Estrela d'Alva, em Campo Grande. No dia do crime, o acusado apresentou versões contraditórias sobre o que teria acontecido. A Polícia Civil concluiu pelo feminicídio e Gilberto segue preso preventivamente.


