Um contrato de tapa-buraco na Região do Segredo, em Campo Grande, que começou com valor de R$ 4,2 milhões e chegou a uma despesa superior a R$ 20 milhões, é um dos focos da investigação do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
De acordo com a investigação, a empresa Construtora Rial Ltda venceu a concorrência para o serviço de recomposição da estrutura de pavimentação. O contrato inicial, firmado em 2022, era de R$ 4.288.013,74. Com os aditivos, o valor total da obra saltou para R$ 21.355.970,06, segundo o MPMS.
Na terça-feira, dia 12, a Operação Buraco Sem Fim prendeu o ex-titular da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos), Rudi Fiorese, que assinou o primeiro contrato em 2022, e dois homens ligados à Construtora Rial. Foram presos Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, sócio-administrador da empresa, e seu pai, Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, conhecido como “Peteca”. Para os investigadores, Antônio Roberto é o verdadeiro tomador de decisões, atuando como sócio oculto, enquanto a empresa está formalmente em nome do filho e da esposa.
Dos R$ 429 mil em espécie apreendidos na operação, mais da metade estava na casa de Antônio Roberto. Outros maços de dinheiro foram encontrados na residência de Rudi Fiorese.
Uma consulta ao Portal da Transparência da Prefeitura de Campo Grande, feita na quinta-feira, dia 14, apontou um valor final do contrato ainda maior: R$ 23.630.404,98, sendo R$ 19.342.391,24 em aditivos. O histórico mostra que, em 1º de julho de 2022, Fiorese e Antônio Jacques assinaram o contrato inicial para manutenção de pavimento asfáltico por 12 meses. O serviço abrangeria bairros como Vila Nasser, Nova Lima, Seminário, Coronel Antonino, Monte Castelo, Vida Nova, Coophasul e Jardim Presidente.
Ao longo dos anos, os aditivos foram assinados por outros dois secretários que passaram pela Sisep. O primeiro aditivo, em maio de 2023, readequou quantitativos sem alterar o valor. O segundo, em junho de 2023, prorrogou o prazo até julho de 2024. O terceiro, em março de 2024, aumentou o valor em 20,64% (R$ 885.003,41). Em junho de 2024, o contrato foi prorrogado por mais um ano, e em maio de 2025, houve nova prorrogação, com vigência até julho de 2026. Em fevereiro deste ano, o contrato foi reajustado em mais R$ 1.073.328,93, com base em índices setoriais.
O vereador Marquinhos Trad (PV), ex-prefeito de Campo Grande, afirmou que a Rial nunca realizou serviços de tapa-buraco em sua gestão e classificou a citação do MP como equivocada. A Sisep informou, em nota, que acompanha os trabalhos do Gecoc e que servidores investigados foram exonerados, garantindo que medidas administrativas serão tomadas para não interromper os serviços.
A defesa do ex-secretário Rudi Fiorese, feita pelo advogado Werther Sibut de Araújo, prepara um pedido de habeas corpus ao TJMS. O advogado afirma que a operação se baseia nos mesmos fatos da Operação Cascalho de Areia, de 2023, e que não há justificativas técnicas para as prisões. A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos empresários Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa e Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa.
